Cravo na Carne - Fama e Fome


Blog do livro "Cravo na Carne - Fama e Fome", de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, publicado pela editora Veneta em 2015.
Contemplado pelo Prêmio Carequinha, da Funarte, "Cravo na Carne - Fama e Fome" traz as histórias de onze mulheres que entre os anos 20 e 50 do século XX, se exibiram como faquiresas no Brasil.
Muito populares na época, as provas de faquirismo consistiam, em sua maioria, no encerramento do faquir ou da faquiresa em uma urna transparente durante um determinado período de dias, semanas ou até mesmo meses, em absoluto jejum, muitas vezes sobre pregos ou cacos de vidro e ao lado de cobras.
O ar de mistério e tragédia que envolvia a exótica profissão não se limitava aos locais onde se realizavam tais provas e também se fazia presente nas vidas pessoais de seus representantes.
O que levaria uma mulher a escolher o faquirismo como arte e profissão em uma época em que optar por carreiras como as de atriz ou cantora já era o suficiente para que não fossem bem vistas pela sociedade preconceituosa e moralista de então?
Quem foram nossas faquiresas?
Como elas eram vistas por seus contemporâneos?
Buscando responder a essas e a outras perguntas, Alberto de Oliveira e Alberto Camarero realizaram extensa pesquisa, cujos resultados trazem à tona em "Cravo na Carne - Fama e Fome", o primeiro livro no mundo sobre a arte circense do faquirismo.

Entre em contato com os autores através do e-mail:

famaefome@gmail.com

Para comprar "Cravo na Carne - Fama e Fome":

Loja Veneta - http://www.lojaveneta.com.br/produtos/cravo-na-carne-fama-e-fome/


Saraiva - http://www.saraiva.com.br/cravo-na-carne-fama-e-fome-o-faquirismo-feminino-no-brasil-8908519.html


Livraria Cultura - http://www.livrariacultura.com.br/p/cravo-na-carne-42962726


Livraria da Travessa - http://www.travessa.com.br/cravo-na-carne-fama-e-fome-o-faquirismo-feminino-no-brasil/artigo/858eb6a3-89c7-45ec-aaf8-6f099645d38f

Amazon - http://www.amazon.com.br/Cravo-Carne-Faquirismo-Feminino-Brasil/dp/8563137417

Martins Fontes Paulista - http://www.martinsfontespaulista.com.br/cravo-na-carne-497638.aspx/p

Livrarias Curitiba - http://www.livrariascuritiba.com.br/cravo-na-carne-fama-e-fome-veneta-lv382979/p

Arte Pau Brasil - http://www.artepaubrasil.com.br/cravo-na-carne-fama-e-fome-o-faquirismo-feminino-no-brasil-698849-p536467

Este projeto foi contemplado pelo PRÊMIO FUNARTE CAIXA CAREQUINHA DE ESTÍMULO AO CIRCO

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Recordes confusos

Em abril de 1956, depois de passar setenta dias sem comer em Recife e bater o recorde mundial feminino de jejum, a faquiresa paranaense Iliana declarou à imprensa local que não pretendia voltar a se exibir em uma prova semelhante, afirmando que isso só aconteceria se seu recorde fosse superado por uma estrangeira.
No início daquele ano, a curitibana Mara se tornara campeã mundial de jejum feminino no Rio de Janeiro passando sessenta e sete dias sem comer. Apesar disso, Iliana, com seus setenta dias, afirmava estar vencendo não Mara, paranaense como ela, mas sim a francesa Yvette e seus cinquenta e seis dias, já vencidos por Mara.
Fato ainda mais curioso aconteceria no final de 1957: em Belém, no Pará, Iliana voltaria a jejuar, encerrada em uma urna de vidro, deitada sobre pregos, ao lado de duas cobras, exposta no Palácio Oriental, na praça Justo Chermont.
Dessa vez, porém, a artista, com uma prova que duraria apenas sessenta dias, afirmaria novamente estar batendo o recorde mundial feminino de jejum, cuja posse naquele momento atribuía então à estrangeira Lys Chelys, que passara cinquenta e cinco dias jejuando na Alemanha.
Tal afirmação, estranhamente, desconsiderava não apenas os cinquenta e seis dias da francesa Yvette e os sessenta e sete dias marcados por Mara, mas também os seus próprios setenta dias de jejum.
Esse tipo de confusão era bastante comum nas provas de faquirismo, tanto na modalidade masculina, quanto na feminina, uma vez que o controle dos recordes não era rigoroso e as exigências para que uma prova de jejum fosse considerada válida não eram muito claras.
Na realidade, nunca foi bem esclarecido na imprensa nacional quem de fato fazia esse controle na época e poderia definir quaisquer exigências.



"Folha do Norte", Belém, PA, 21 de novembro de 1957
Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna, Belém, PA

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Empresário de faquir

Bem pouco se sabe sobre a faquiresa Wilmara, que se exibiu jejuando durante quinze dias em Curitiba em março de 1951, encerrada em uma urna de vidro, deitada sobre mil pregos, ao lado de duas cobras.
Seu empresário na ocasião, Alcides de Souza Aguiar, trabalharia com outra faquiresa no final daquele ano - em setembro, ele estaria envolvido com uma prova de jejum da gaúcha Sandra realizada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Não muito bem vista na época, a figura do empresário de faquirismo chegou até a ser referenciada em uma chanchada de 1956, "Depois, eu conto", como sinônimo de golpista, em uma cena na qual a personagem de Dercy Gonçalves usa a expressão "empresário de faquir" para ofender o personagem de Zé Trindade.

 
"A Tarde", Curitiba, PR, 12 de março de 1951
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O faquirismo além do jejum

Quando se fala na arte circense do faquirismo, muitos pensam nos artistas que perfuram seus corpos, engolem espadas e cospem fogo. Outros consideram faquires também os encantadores de serpentes e aqueles que permanecem enterrados sob a terra por alguns minutos ou algumas horas.
Dentro do universo do circo que se manifesta debaixo da lona, esse faquirismo é realmente bem mais comum e seus praticantes podem ser encontrados com facilidade até hoje no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
"Cravo na Carne - Fama e Fome", porém, focaliza um segmento específico e aparentemente extinto há muitos anos do faquirismo circense - as exibições de jejum; e de forma ainda mais específica, em sua modalidade feminina.
Todas as faquiresas apresentadas ao longo do livro têm em comum o fato de terem se apresentado em território nacional jejuando expostas ao público, encerradas em urnas de vidro ou caixões de madeira, com ou sem pregos e outros elementos de tortura, com ou sem serpentes em seus ataúdes.
Isso não impede que várias delas também dominassem outras áreas do faquirismo.
Yone, por exemplo, no início de 1958, à beira de deixar sua urna, instalada na praça do Correio, em São Paulo, dentro da qual vinha buscando bater o recorde mundial feminino de jejum, anunciou à imprensa para breve uma apresentação na qual repetiria "o suplício de Santa Joana D´Arc", "amarrada a um poste", permanecendo "largo tempo envolvida pelo calor de dois mil archotes" em um campo de futebol, além de outra prova chamada "A dança dos cristais", sobre a qual não deu maiores detalhes na ocasião para "surpreender os assistentes com um espetáculo coreográfico de primeira ordem e rara beleza".




"O Dia", São Paulo, SP, 28 de janeiro de 1958
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

domingo, 27 de setembro de 2015

Mara e a praga do Arubinha

Antes de ser encerrada em sua urna no Cineac Trianon, na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, e se tornar campeã mundial de jejum feminino depois de passar sessenta e sete dias sem comer, a faquiresa curitibana Mara pretendia permanecer nove minutos enterrada viva em um campo de futebol diante do público brasileiro, número que já realizara diversas vezes com sucesso em vários países da América Latina.
1955 chegava ao fim e no mesmo Cineac Trianon, seu esposo, o faquir Urbano, já se encontrava exposto ao público há um bom tempo, buscando bater o recorde mundial de jejum.
Em um primeiro momento, Mara tentou obter permissão para ser enterrada no estádio do Maracanã, que lhe negou seu campo com o pretexto de que "os sucessivos jogos de futebol ali disputados não poderiam ser preteridos" pelo espetáculo da faquiresa.
Assim, a artista fez nova tentativa, pedindo a licença do Vasco da Gama para se enterrar em seu campo.
Uma reunião foi realizada para discutir a possibilidade de atenderem o pedido de Mara, mas um sinistro episódio que marcara a história do time deixara nos cruzmaltinos um profundo trauma em relação a enterramentos.



"Diário Carioca", Rio de Janeiro, RJ, 06 de novembro de 1955
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ
http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx


Mara ao fim de uma de suas provas de "enterrada viva" realizadas na América Latina
Fonte: Acervo da família

sábado, 26 de setembro de 2015

O acervo da faquiresa Sandra

Nessa sexta-feira, 25 de setembro de 2015, os autores de "Cravo na Carne - Fama e Fome", Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, estiveram com a neta da faquiresa gaúcha Sandra, Andréia Athaydes.
Ao longo de sua vida, Sandra, campeã gaúcha de faquirismo em 1956 e campeã mundial de jejum feminino em 1958, falecida em 2003, guardou vasto material de sua carreira artística: fotografias, recortes de jornais, anúncios de exibições e até mesmo um caderno no qual seus fãs deixaram mensagens de incentivo e admiração ao assisti-la em provas de jejum realizadas em 1951 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e em 1956, em Porto Alegre.
Esse acervo, hoje sob os cuidados de Andréia, que tem grande orgulho da avó, é um precioso e raro registro do faquirismo feminino nacional. Através dele, tantas décadas depois, é possível dimensionar o prestígio que tinham as faquiresas no Brasil nos anos 50, no auge de sua arte no país.


Alberto Camarero, Andréia Athaydes e o acervo de Sandra


Alberto de Oliveira, Andréia Athaydes, Alberto Camarero e, no retrato, Sandra

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"Cravo na Carne - Fama e Fome" no programa "Em Cartaz", na TV Aberta

Nessa quarta-feira, 23 de setembro de 2015, foi ao ar no programa "Em Cartaz", apresentado por Atilio Bari, na TV Aberta, uma entrevista dos autores de "Cravo na Carne - Fama e Fome", Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, a respeito do livro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

1958: a "senhorita indiana" em Jaú

No dia 11 de setembro de 2015, comentando a publicação de "Cravo na Carne - Fama e Fome" no jornal "Comércio do Jahu", de Jaú, cidade do interior de São Paulo, a colunista Vera Lotto trouxe à tona a remota lembrança do jornalista José Maria Domingues dos Santos a respeito de uma faquiresa que passou por lá no final dos anos 50, fato desconhecido pelos autores do livro até então.
Seguindo essa pista, Alberto de Oliveira e Alberto Camarero entraram em contato com a Patrícia, que trabalha no Arquivo Histórico Dr. Raul Bauab e se dispôs a encontrar algum registro de uma prova de jejum realizada por uma mulher em Jaú nas edições antigas do "Comércio do Jahu".
E a busca teve sucesso - uma pequena reportagem datada de fevereiro de 1958 confirma a presença de uma faquiresa chamada pelo jornal apenas de "senhorita indiana" e "bela indiana" em Jaú, a qual já vinha jejuando na cidade encerrada dentro de uma urna de vidro na companhia de uma cobra desde o início daquele mês. Ao seu lado, contava a matéria, principalmente à noite, velava seu empresário para que a cobra não se enrolasse em seu pescoço.
É essa nota que publicamos nessa postagem, logo abaixo da reprodução do já citado texto assinado por Vera Lotto:

"Chama-se “Cravo na Carne” o livro extremamente singular que acaba de ser lançado pela Editora Veneta. Nele, o autor, Alberto Camarero, conta a história de 11 mulheres que ganhavam a vida trancando a boca. Sim, ficavam sem comer. Elas se metiam em uma urna de vidro e lá permaneciam em absoluto jejum – ou pelo menos é isso que anunciavam – por longa temporada, vestidas de macacões negros e em companhia de duas cobras não venenosas, de preferência jiboias, para dar mais dramaticidade à exibição. Naturalmente cobravam ingressos para serem vistas. Eram as faquiresas, feminino da palavra faquir, que designa mendicantes muçulmanos ou hindus, praticantes de rigoroso ascetismo religioso, com o qual superam sofrimentos físicos, inclusive a fome e a capacidade de dormir em cama de pregos.
Hoje eles são raros. Mas nos anos 50 eram populares no Brasil por causa das façanhas de Adelino João da Silva (1922-1998), cujas apresentações comoviam o País. A imprensa, em especial a revista “O Cruzeiro”, então líder em vendagem, lhe dedicava longas reportagens, fazendo dele uma celebridade. Chegou a ficar três meses sem comer. Entrou no “Guiness”, dos recordes. Não é difícil concluir que as faquiresas surfavam na sua fama.
Jaú não escapou desse modismo. Salvo engano, em 1958, uma delas se apresentou no Clube Luiz Gama, onde hoje se encontra a Casas Bahia. Durante vários dias, talvez umas duas semanas, atraiu a atenção da cidade e assim prosseguiria enquanto a bilheteria continuasse rendendo, se um episódio até hoje confuso, e de veracidade não comprovada, provocasse sua partida inesperada (caso alguma testemunha da época tenha informações precisas, que se apresente, por favor). Eis o que teria acontecido, segundo até onde as lembranças difusas podem alcançar: numa noite, por volta das 2h, um funcionário do “Comércio do Jahu”, após encerrar sua jornada, cruzou a Praça Siqueira Campos, como sempre fazia ao ir para casa. Além de ser o seu caminho, ele gostava de parar no Bar Jahu, tradicional reduto dos notívagos em uma das esquinas da Visconde do Rio Branco com a Edgard Ferraz, para trocar ideias. As luzes acesas do Clube Luiz Gama naquelas horas avançadas chamaram sua atenção. Não precisou fazer maior esforço investigativo para verificar que a faquiresa estava jantando com apetite, instalada em uma mesa. Certamente não seria a primeira vez. Seguramente, a palidez que exibia era fruto de maquiagem. Talvez o descuido que a levou a ser flagrada tenha decorrido do excesso de confiança da equipe, habituada à impunidade jamais castigada.
Naquele dia, o salão do Clube Luiz Gama amanheceu vazio."

"Comércio do Jahu", Jaú, SP, 11 de setembro de 2015

"Comércio do Jahu", Jaú, SP, 11 de fevereiro de 1958
Fonte: Arquivo Histórico Dr. Raul Bauab

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

"A morta viva"

Em abril de 1928, chamou grande atenção no Rio de Janeiro a prova de jejum realizada pela faquiresa alemã Gitty na rua da Carioca.
Encerrada em seu "quarto de cristal", como era chamado pela imprensa o espaço dentro do qual ela permanecia exposta, Gitty passava seus dias "bebendo calmamente águas minerais e fumando deliciosos cigarros de fumo louro".
Sensacionalistas, os anúncios da exibição chamavam o público para assistir "a morta viva", "assombrosa novidade" da "Índia misteriosa".


"A Noite", Rio de Janeiro, RJ, 11 de abril de 1928
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

"O Malho", 28 de abril de 1928
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ
http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx

terça-feira, 22 de setembro de 2015

"A faquiresa fugiu da urna"

Desde seu início, no dia 13 de março de 1959, a prova de jejum realizada por Suzy King na galeria Ritz, em Copacabana, não vinha correndo bem.
Tudo já começara mal no tumultuado desfile com o qual a artista, cavalgando seminua pelo centro do Rio de Janeiro, pretendia divulgar sua exibição.
Nos dias seguintes, o nome de Suzy King realmente estaria nas páginas dos principais jornais do Brasil, mas não da forma como ela queria: o público avançara sobre a faquiresa durante o desfile, deixando-a completamente nua em plena avenida Rio Branco.
Encerrada em sua urna, Suzy King protagonizou diversos episódios bastante confusos na pequena sala em que se encontrava exposta na galeria Ritz.
Vários deles envolviam agressões do público contra ela: em um deles, por exemplo, uma menina que oferecia uma garrafa de leite a Suzy King, diante de sua recusa, teria quebrado a garrafa na urna.
Em outra ocasião, a confusão partira dela, que mandara sua empregada incendiar a cortina da sala de exibição para distrair o segurança contratado para vigiá-la enquanto ela fugia. O plano, porém, foi descoberto por ele.
Prevista para durar cento e dez dias, a prova vinha sendo tão penosa para Suzy King que ela não desistia de traçar planos de fuga.
Finalmente, depois de cinquenta e três dias sem comer, a jejuadora quebrou a marteladas sua urna e conseguiu abandoná-la.
Flagrada pelo segurança Nocaute Jack, lutador que ficaria conhecido anos mais tarde como massagista da Seleção Brasileira de Futebol, Suzy King foi levada para a delegacia, de onde saiu em uma ambulância, após sofrer um violento ataque de nervos.



"Luta Democrática", Rio de Janeiro, RJ, 07 de maio de 1959
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

Essa e outras histórias de Suzy King podem ser conferidas no blog "Suzy King", criado por Alberto de Oliveira em 2012, quando ele e Alberto Camarero ainda davam os primeiros passos da pesquisa que se tornaria o livro "Cravo na Carne - Fama e Fome":

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os faquires também cantam

Em 1970, ao que tudo indica, as faquiresas já estavam extintas no Brasil, mas ainda surgiam, em algumas partes do país, ainda que raramente, alguns homens dispostos a se exibirem jejuando encerrados em urnas de vidro, deitados sobre pregos, cercados por serpentes, no mesmo modelo clássico do faquirismo praticado em seu auge, nos anos 50.
Um desses faquires obteve grande destaque na imprensa nacional naquele ano por sua prova realizada no Rio de Janeiro, com a qual afirmava que quebraria o recorde mundial de jejum: Zokan.
Embora aclamado como campeão ao fim de cento e trinta e dois dias sem comer, seu recorde era menor, por exemplo, do que o alcançado pelo faquir brasileiro Lookan em 1958, depois de cento e trinta e quatro dias jejuando.
Dez anos depois, em 1980, com apenas cento e quinze dias sem comer alcançados em prova realizada em São Paulo, o faquir Silki seria aclamado campeão mundial de jejum e seria a vez do recorde de Zokan ser ignorado pelo público, que sempre teve memória curta para o faquirismo.
A prova de jejum de Zokan em 1970 foi agitada: além de ter a imagem de sua santa de devoção roubada, o faquir não poupava energia, ao contrário de jejuadoras como Suzy King e Sandra, que mantinham em suas salas de exibição avisos ao público de que não deviam nem ao menos falar com elas.
Quase todas as noites, Zokan cantava acompanhado pelo violão de seu assistente Ben-Hur, que queria ser ator e também estrearia no faquirismo em breve, jejuando durante quinze dias em Aparecida do Norte para pagar uma promessa que fizera.
A cantoria de Zokan não parava por aí: próximo de completar os primeiros trinta dias de prova, ele anunciava à imprensa que gravaria, dentro de sua urna, quatro músicas mexicanas, as quais seriam distribuídas em diversas emissoras de rádio.


"Tribuna da Imprensa", Rio de Janeiro, RJ, 27 de abril de 1970
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

domingo, 20 de setembro de 2015

Grandes apaixonados e inimigos fervorosos

A relação entre os faquires e seu público costumava ser bastante intensa.
Ao contrário da maior parte dos artistas, cujo contato com a platéia é breve e se resume a uma ou duas horas que passam no palco, os jejuadores ficavam expostos dias inteiros por longos períodos, separados das pessoas que iam assisti-los apenas pelo vidro da urna em que se encontravam encerrados.
Tal situação era propícia para que eles ganhassem grandes apaixonados e também inimigos, alguns dos quais tão fervorosos que chegavam até a ameaçar matá-los.
Foi o caso, por exemplo, de alguém que se escondia sob a alcunha Mão do Diabo e enviou uma carta ao pavilhão onde jejuava o casal de faquires Yone e Lookan em busca do recorde mundial de jejum nas modalidades masculina e feminina.
Nela, Mão do Diabo dizia que mataria Lookan e confessava seu amor por Yone.




"O Dia", São Paulo, SP, 15 de janeiro de 1958
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

sábado, 19 de setembro de 2015

"Um popular acabou com a 'casa de diversões' da avenida São João"

Entre o final de março e o início de maio de 1955, na capital paulista, a avenida São João oferecia ao público uma boa variedade de faquires - quem passasse por lá naqueles meses poderia tanto prestigiar uma dupla atração nacional como o casal Urbano e Mara, expostos em urnas instaladas lado a lado no número 601, quanto a faquiresa inglesa Margareth, filha do famoso faquir Horbia Usem, no número 520 ou 1518 (as reportagens variam em relação ao endereço correto da exibição).
Porém, quem escolhesse pagar para ver Margareth ficaria bastante decepcionado - enquanto o casal de jejuadores completou os vinte e cinco dias sem comer que haviam prometido com êxito, a faquiresa estrangeira foi flagrada comendo alguns dias depois de ter sido encerrada em sua urna de vidro e teve que interromper sua exibição.


"Folha da Tarde", São Paulo, SP, 06 de maio de 1955
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

1957: Yone em Bauru

No dia 09 de maio de 1957, a faquiresa Yone foi encerrada dentro de uma urna de vidro em Bauru, no interior de São Paulo, onde deveria passar trinta dias jejuando deitada sobre uma cama de pregos, cercada por serpentes.
Dezoito cadeados garantiam que sua urna seria mantida fechada até o final da exibição, tendo sido distribuídas trinta e seis chaves deles a autoridades e representantes da imprensa, os quais deveriam devolvê-las no dia da abertura da urna.
Tal procedimento era comum em quase todas as provas de faquirismo realizadas no Brasil na época.


"Correio Paulistano", São Paulo, SP, 18 de maio de 1957
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP
http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital/jornais_revistas


Yone em Bauru, 1957

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"Uma mulher original"

A primeira referência a uma mulher se exibindo como faquiresa no Brasil data de 1923, quando a francesa Rose Rogé passou oito dias sem comer enterrada em um cinema no centro do Rio de Janeiro.
A artista tinha sido costureira e dona de pensão na capital carioca anos antes, mas perdera tudo o que tinha depois de um escândalo que envolvera seu nome com o de um padre apaixonado por ela.
Passando fome nas ruas do Rio de Janeiro, Rose Rogé percebeu então que poderia ganhar dinheiro se exibindo em público sem comer durante vários dias e iniciou sua batalha por um espaço onde pudesse permanecer exposta jejuando.
Por seu pioneirismo, ela foi aclamada como grande heroína pela imprensa da época, que via no surgimento de uma mulher na arte do faquirismo uma importante conquista feminina.


"A Noite", Rio de Janeiro, RJ, 20 de janeiro de 1923
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

1958: Sandra em Caxias do Sul

No início do ano em que se tornaria campeã mundial de jejum feminino - 1958 - depois de oitenta e três dias jejuando deitada sobre cacos de vidro na companhia de algumas cobras, a faquiresa Sandra fez um "aquecimento" em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, ali se exibindo durante trinta e cinco dias.
Naquela ocasião, a prova de jejum de Sandra coincidiu com a realização da tradicional Festa da Uva na cidade, o que tornou a faquiresa uma das grandes atrações dos festejos daquele ano.


"Pioneiro", Caxias do Sul, RS, 15 de fevereiro de 1958
Fonte: Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, Caxias do Sul, RS

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Solicitação para jejuar

Nos anos 50, no auge do faquirismo no Brasil, antes de iniciar uma prova de jejum em uma cidade, era necessário que o faquir ou seu empresário fizesse uma solicitação à prefeitura local para que pudesse realizar sua exibição.
A faquiresa Verinha, por exemplo, quando pretendia se apresentar em Campinas em 1958, precisou dirigir tal solicitação duas vezes à prefeitura municipal, visto que a primeira delas foi indeferida.
Apenas em sua segunda tentativa, a artista obteve a autorização que desejava, iniciando então os preparativos para sua prova.
Em Campinas, Verinha jejuaria durante quarenta e dois dias deitada sobre pregos e cercada por serpentes, encerrada em uma urna de vidro instalada dentro de um pavilhão montado em um terreno baldio na rua General Osório, quase esquina com a rua José Paulino.
A pedido da própria faquiresa Verinha, que não deseja ter sua verdadeira identidade revelada, seu nome foi coberto por uma tarja preta todas as vezes em que aparece na documentação que publicamos nessa postagem.


Fonte: Arquivo Municipal de Campinas, Campinas, SP
 







Fonte: Arquivo Municipal de Campinas, Campinas, SP


Verinha
"Correio Popular", Campinas, SP, 25 de abril de 1958
Fonte: Rede Anhanguera de Comunicação, Campinas, SP

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

"Um homem engarrafado e uma mulher enterrada viva"

Hosanna de Barros parece ter sido a primeira faquiresa realmente brasileira, iniciando suas exibições de faquirismo no país pouco tempo depois da francesa Rose Rogé.
Alagoana, prima em terceiro grau do marechal Floriano Peixoto, ex-presidente da República, a artista era esposa do compositor, cantor e professor de violão Josué de Barros, que ficaria conhecido mais tarde como o homem que descobriu Carmen Miranda e também se dedicava às provas de jejum na época.
Ao lado do marido, Hosanna de Barros passou vários dias exposta jejuando em São Paulo em 1927, no teatro Apollo - ele dentro de uma garrafa de cristal e ela encerrada em uma urna.


"A Gazeta", São Paulo, SP, 07 de fevereiro de 1927
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

domingo, 13 de setembro de 2015

Faquiresa Nadia Goya na Itália, 1952

Mais um raro registro em vídeo da exibição de uma faquiresa.
Prova de jejum realizada na Itália em 1952, quando a faquiresa Nadia Goya pretendia bater o recorde mundial de jejum.


Fonte: Archivio Storico Istituto Luce

sábado, 12 de setembro de 2015

Faquiresa Lys Chelys em Lille, na França, 1951

Raro registro em vídeo da exibição de uma faquiresa.
Prova de jejum realizada em Lille, na França, em 1951, quando a faquiresa Lys Chelys pretendia bater o recorde mundial de jejum.


Fonte: Gaumont Pathé Archives

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sandra, campeã gaúcha de faquirismo em 1956 e campeã mundial de jejum feminino em 1958

Ao longo dos anos 50, obteve grande sucesso no Rio Grande do Sul com suas provas de jejum a faquiresa gaúcha Sandra, nascida em Torres ou Osório, de acordo com os jornais da época.
Depois de se tornar campeã gaúcha de faquirismo em 1956 após uma exibição de trinta e um dias em Porto Alegre deitada sobre uma cama de seiscentos pregos ao lado de uma serpente, Sandra voltou a jejuar na cidade no final de 1958, na praça Parobé, onde também se exibia, no mesmo período, a faquiresa paulista Malba.
Malba se tornaria campeã mundial de jejum feminino depois de oitenta dias sem comer em novembro daquele ano e Sandra a suplantaria poucos dias depois, em dezembro, com oitenta e três dias de jejum, dessa vez deitada sobre cacos de vidro e novamente cercada por cobras.



"Correio do Povo", Porto Alegre, RS, setembro de 1958
Fonte: Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, Porto Alegre, RS

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Lançamento do livro "Cravo na Carne - Fama e Fome" em Campinas

Hoje, quinta-feira, 10 de setembro de 2015, o livro "Cravo na Carne - Fama e Fome" será lançado na Livraria da Vila, no Shopping Galleria, na rodovia D. Pedro I, s/n, em Campinas, entre as 18h30 e as 21h30.
O lançamento contará com a presença dos autores autografando o livro.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

"Noite de alegria! Flores, etc. , etc."

Desde o início de sua prática no Brasil, as provas de faquirismo eram anunciadas com grande sensacionalismo pela imprensa.
Um bom exemplo disso é um anúncio publicado em 1928 chamando o público para assistir a saída de Arady Rezende de sua urna depois de dez dias de jejum.
"Noite de alegria! Flores, etc. etc.", prometia o jornal para a noite do final da prova da jovem faquiresa.


"Folha da Noite", São Paulo, SP, 05 de maio de 1928
Fonte: Acervo Folha

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Faquirismo e nacionalismo

Quase sempre as provas de faquirismo eram dotadas de certo caráter nacionalista, uma vez que os faquires e faquiresas eram considerados glórias nacionais pela capacidade de enfrentarem a fome e a tortura.
Isso era mais evidente nas provas em que eles pretendiam bater algum recorde de jejum, mas elementos como a bandeira do Brasil, por exemplo, eram constantes no cenário das exibições de faquirismo em geral.
Até mesmo a jejuadora alemã Gitty teve seu quarto de cristal coberto com a bandeira do Brasil quando se exibiu no Rio de Janeiro no final dos anos 20.
Também a faquiresa pernambucana Verinha, em sua prova de jejum realizada em Campinas, no interior de São Paulo, em 1958, contava com a presença da bandeira do Brasil em seu pavilhão, a qual pode ser vista em uma das fotografias publicadas pela imprensa local na ocasião.



"Correio Popular", Campinas, SP, 18 de março de 1958
Fonte: Rede Anhanguera de Comunicação, Campinas, SP

domingo, 6 de setembro de 2015

Mudança de identidade

Suzy King já tinha quase cinquenta anos de idade quando resolveu deixar de ser Georgina Pires Sampaio e se tornar Jacuí Japurá Sampaio.
Nascida em 1917, a faquiresa conseguiu uma nova certidão de nascimento em Curitiba em novembro de 1966, na qual, além de trocar de nome, se dizia nascida em 1934.
Sua filiação também mudou, assim como sua cidade natal, o que, aliás, não era nenhuma novidade para ela.
Vinda da Bahia para São Paulo e o Rio de Janeiro, cidades nas quais morou entre 1938 e 1966, Suzy King usou durante todos esses anos documentos que apontavam a cidade natal de Georgina Pires Sampaio, sua identidade de então, como Porto Alegre.
Já Jacuí Japurá Sampaio teria nascido na outra ponta do Brasil, em Manaus.
Com esse nome, a artista partiria para o México, onde viveria até o início de 1970, quando passaria a residir em Chula Vista, na Califórnia, nos Estados Unidos, vindo a falecer ali em 1985, naturalizada norte-americana, sem que jamais descobrissem sua farsa.


Certidão de nascimento de Jacuí Japurá Sampaio
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Curitiba, Paraná


Certidão de nascimento de Jacuí Japurá Sampaio 
Fonte: United States Citizenship and Immigration Services


Suzy King, 1964
Fonte: Agência O Globo

Essa e outras histórias de Suzy King podem ser conferidas no blog "Suzy King", criado por Alberto de Oliveira em 2012, quando ele e Alberto Camarero ainda davam os primeiros passos da pesquisa que se tornaria o livro "Cravo na Carne - Fama e Fome":

sábado, 5 de setembro de 2015

"Cravo na Carne - Fama e Fome" no programa "The Noite", no SBT

Nessa semana, na madrugada de quinta-feira, 03 de setembro de 2015, para sexta-feira, 04, foi ao ar no programa "The Noite", apresentado por Danilo Gentili, no SBT, a entrevista que Alberto de Oliveira e Alberto Camarero gravaram em meados de agosto a respeito do livro "Cravo na Carne - Fama e Fome" para o quadro "Cultura em 6 minuto".

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Surge um terceiro faquir: uma loura"

A arte do faquirismo era o assunto do momento no Rio de Janeiro em meados de 1955, quando os faquires Silki e Kasman se exibiam simultaneamente na cidade, o primeiro no Cineac Trianon, na avenida Rio Branco, e o segundo em Copacabana, ambos pretendendo bater o recorde mundial de jejum.
Foi dentro desse contexto que surgiu Rossana, a primeira faquiresa a ganhar grande destaque nas páginas dos principais jornais cariocas desde a prova de jejum fracassada da alemã Gitty no Rio de Janeiro em 1929.
Para a imprensa, a chegada de "uma bela mulher de hábitos semelhantes" vinha "amenizar o panorama" da disputa entre os dois faquires, que vinham se agredindo mutuamente através de declarações nada amigáveis aos jornais.



"Diário Carioca", Rio de Janeiro, RJ, 03 de junho de 1955
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, RJ

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Mara em Porto Rico, início dos anos 50

Antes de se tornar campeã mundial de jejum, o que aconteceu no Rio de Janeiro em 1956, a faquiresa curitibana Mara, esposa do famoso faquir Urbano, no início daquela década, alcançou grande sucesso com suas exibições na América Latina.
De uma dessas provas, realizada em Porto Rico, restou uma série de fotografias cedidas pela família de Mara aos autores de "Cravo na Carne - Fama e Fome" que cobrem a entrada da jejuadora em sua urna de vidro, a exibição em si, a transferência do caixão para outro local na ocasião de sua saída e a homenagem prestada à faquiresa por sua vitória.
Trata-se de um material precioso, já que os registros fotográficos de provas de jejum realizadas por mulheres são muito raros.










Mara em Porto Rico, início dos anos 50
Fonte: Acervo da família